segunda-feira, 8 de novembro de 2010

História de Cronópios e Famas - Júlio Cortázar

Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

Instruções para dar corda no relógio

Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.

Jogo da amarelinha- Júlio Cortázar

Nunca levei você para Mme. Leóni ler a palma da sua mão, pois na certa tive medo de que ela lesse em suas mãos alguma verdade sobre mim , já que você sempre foi uma espelho terrível , uma espantosa máquina de reprodução, e aquilo que chamávamos o nosso amor era talvez eu estar de pé diante de você, com uma flor amarela na mão e você com duas velas verdes , enquanto o tempo soprava contra os nossos rostos uma lenta chuva de renúncias e de despedidas e passagens de metrô[...]Como poderia eu desconfiar de que aquilo que parecia falso era verdadeiro, um Figari com violetas ao anoitecer , com rostos lívidos , com fome e brigas nos recantos . Mais tarde acreditei naquilo que você me contou ; mais tarde tive razões para isso , pois houve Mme. Leónie que , olhando a mão que dormira em seus seios , Maga , me repetiu quase as mesmas palavras que você havia dito . " Ela sofre em alguma parte. Sempre tem sofrido. É muito alegre , adora o amarelo e seu pássaro favorito é o melro , a sua hora é a noite , a sua ponte é o Pont des arts ."(Uma barca cor de vinho , Maga , e por que razão não teríamos ido nessa barca , quando ainda era tempo? )E repare que acabávamos de travar conhecimento e a vida já tramava o necessário para que nos desencontrássemos minuciosamente.Como você não sabia dissimular , descobri quase imediatamente que , para vê-la como eu queria , era necessário começar por fechar os olhos e, então , surgiam coisas , primeiro como estrelas amarelas (movendo-se como geléia de pêssego ) , depois como cachoeiras vermelhas de jovialidade e das horas , ingresso paulatino num mundo-Maga que era a falta de jeito e a confusão , mas também levava a assinatura de Klee , do circo de Miró , dos espelhos cinzentos Viera da Silva , num mundo onde você se movia como um cavalo de xadrez que se movesse como uma torre que se movesse como um bispo ."