segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Jogo da amarelinha- Júlio Cortázar
Nunca levei você para Mme. Leóni ler a palma da sua mão, pois na certa tive medo de que ela lesse em suas mãos alguma verdade sobre mim , já que você sempre foi uma espelho terrível , uma espantosa máquina de reprodução, e aquilo que chamávamos o nosso amor era talvez eu estar de pé diante de você, com uma flor amarela na mão e você com duas velas verdes , enquanto o tempo soprava contra os nossos rostos uma lenta chuva de renúncias e de despedidas e passagens de metrô[...]Como poderia eu desconfiar de que aquilo que parecia falso era verdadeiro, um Figari com violetas ao anoitecer , com rostos lívidos , com fome e brigas nos recantos . Mais tarde acreditei naquilo que você me contou ; mais tarde tive razões para isso , pois houve Mme. Leónie que , olhando a mão que dormira em seus seios , Maga , me repetiu quase as mesmas palavras que você havia dito . " Ela sofre em alguma parte. Sempre tem sofrido. É muito alegre , adora o amarelo e seu pássaro favorito é o melro , a sua hora é a noite , a sua ponte é o Pont des arts ."(Uma barca cor de vinho , Maga , e por que razão não teríamos ido nessa barca , quando ainda era tempo? )E repare que acabávamos de travar conhecimento e a vida já tramava o necessário para que nos desencontrássemos minuciosamente.Como você não sabia dissimular , descobri quase imediatamente que , para vê-la como eu queria , era necessário começar por fechar os olhos e, então , surgiam coisas , primeiro como estrelas amarelas (movendo-se como geléia de pêssego ) , depois como cachoeiras vermelhas de jovialidade e das horas , ingresso paulatino num mundo-Maga que era a falta de jeito e a confusão , mas também levava a assinatura de Klee , do circo de Miró , dos espelhos cinzentos Viera da Silva , num mundo onde você se movia como um cavalo de xadrez que se movesse como uma torre que se movesse como um bispo ."
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